GLAUBER ROCHA?



Num tempo que em a Bahia já pulsava na alegria de sua cultura viva, Glauber Rocha nasceu, filho de Lúcia e Adamastor. Perdeu a irmã Ana Marcelina por uma dessas vicissitudes inexplicáveis. Se o destino tira injustamente dá logo um jeito de reconsiderar e Glauber ganhou outra irmã logo em seguida, a Ana Lúcia de sangue cigano.

Talvez Glauber não soubesse bem o que queria quando resolveu fazer Direito, em 1957. Um ano depois já tinha se enfiado na redação do Jornal da Bahia e estava às voltas com a produção de "Pátio".

"Cruz na praça" e o casamento com Helena Ignez aconteceram quase ao mesmo tempo. Em 1960 começava a década da mudança na vida de Glauber, no Brasil e no mundo. Inaugurado com o nascimento da filha Paloma, passou pela separação de Helena e pelo começo da vida de cineasta. Até o lançamento de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", em 1963, Glauber já tinha se metido na produção de "A Grande Feira", de Roberto Pires e de “Barravento”, de Luiz Paulino Santos.

Em 1964 veio a Ditadura e ele não conseguiu escapar: foi preso no ano seguinte. Sem deixar se abater, em 1966 já estava lá de novo, co-produzindo "A Grande Cidade", de Carlos Diegues e preparando "Terra em Transe". O Regime estava de olho nele, quase proibiram o filme, mas a genialidade deu conta de criptografar a mensagem do filme e o lançou à aclamação de crítica internacional.

Glauber era o cineasta apontando o caminho para o cinema político revolucionário, e para Godard só ele poderia ser este personagem no filme "Vent d’Est". Escolhido o melhor diretor pelo filme "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro", no festival de Cannes de 1969, teve estes negativos queimados anos mais tarde em um incêndio na França.  Aproveitando a Europa, filmou "Cabeças Cortadas" na região da Catalunha.

No Brasil o tempo andava ruim, muito limitado. Foi para os Estados Unidos, onde apresentou "Eztetyka do Sonho" como tese na Universidade de Columbia. O filho Daniel nasceu no Chile no mesmo ano em que Glauber decidiu ir para Cuba.

Viajando o mundo, o cineasta encontrou a inspiração para reescrever uma história do seu país, contada à maneira em "História do Brasil": subvertendo a ordem esperada das coisas.

Em 1976 era hora de voltar ao Brasil. Perderia a irmã Anecy, ganharia o filho Pedro e começaria a filmar "A Idade da Terra" nesse mesmo ano. 

Há exatos 30 anos perdemos o cineasta movido pelo princípio “uma câmera na mão, uma idéia na cabeça”. Esta retrospectiva é também uma tentativa de resgatar a ousadia desse personagem da nossa história, a sua capacidade de subversão. Afinal, Glauber Rocha inspira o Coletivo Rodamoinho a fazer política de um jeito diferente.